Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta trabalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta trabalho. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de dezembro de 2011

EDUCAÇÃO DO(NO) CAMPO E TRABALHO: CAMINHOS QUE SE CRUZAM


BARBOSA, Marcelo dos Santos & LÚCIO, Antonio Barbosa. Educação do(no)campo e trabalho: caminhos que se cruzam. UNEAL/NEASR. (Trabalho apresentado no III Fórum Brasileiro do semiárido- educação contextualizada: natureza, técnicas, cidadania e diversidade de 14 a 20/05/2011/UVA-CE),



Marcelo dos Santos Barbosa[1]

marcelo_uneal@hotmail.com

Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL

Antonio Barbosa Lúcio[2]

ablucio1@yahoo.com.br

Núcleo de Estudos Agrários e Movimentos Sindical Rural em Alagoas-NEASR



RESUMO

Este artigo tem por objetivo apresentar reflexões sobre a educação no campo e sua relação com o mundo do trabalho tendo em vista sua importância para a formação do homem na sociedade. Esta é marcada por contradições e conflitos, onde existem classes que dominam e são dominadas proporcionando, assim o antagonismo entre os indivíduos. O texto mostra elementos significativos para entender o propósito da educação no campo e suas dimensões no Nordeste brasileiro.



Palavras-chaves: Educação- campo-trabalho



Introdução

Ao longo do processo histórico da humanidade, é possível compreender a complexidade do desenvolvimento humano. Os indivíduos passam a ter oportunidades de refletir o que são como pensam, como agem, quanto sujeitos de uma sociedade, historicamente produzida em movimento de permanências e rupturas, conservação e transformação do meio social em que os indivíduos vivem, pois numa analise histórica da educação, podemos compreender o fenômeno educacional como algo necessário. ‘‘Podem-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião e por tudo que se queira. Mas eles próprios começam a se distinguir dos animais, logo que começam a produzir seus meios de existência. (MARX e ENGELS, 1989: 13)”.

A partir do século XIX a sociedade mudou seu perfil e suas necessidades sociais, econômicas e políticas passaram a serem outras, um mundo sendo dominado pelo capitalismo; sistema baseado na propriedade privada em que os meios de produção pertencem a um grupo privilegiado. Trata-se de uma etapa em que para preservar os lucros os empresários empurram a humanidade para a decomposição econômica, social e política sem precedentes, o modo de produção capitalista consiste na prática da mais-valia, ou seja, a exploração do trabalho assalariado, mais numa situação em que os mercados se estruturam, pois “acumulação do capital se dá num ritmo maior que a capacidade de consumo das amplas massas (GRAMSCI, 1989: 33-60)”. Tal situação favoreceu o processo de acumulação do capital e, nesse, o desenvolvimento e aprimoramento do capital especulativo. O que significa dizer que os capitalistas privilegiaram a especulação. Esta leva à destruição da força de trabalho. Através do emprego, o proletariado vende sua força produtiva ao capitalista ao mesmo tempo este o explora através do salário, Este “é determinado pela luta árdua entre o capitalista e o trabalhador (MARX 1867: 65)”. A tendência dominante do capitalismo é a destruição de parte das forças produtivas, o que favorece as políticas de “desregulamentação e desindustrialização e a própria organização da classe operária como classe (MANACORDA, 1969: 87-91)”. Na relação entre as forças produtivas e o capitalista, tende a encontrar a resistência dos trabalhadores. O capitalismo, em sua fase atual, apresenta maior racionalidade econômica, onde todas as barreiras devem ser quebradas para facilitar a livre circulação de capitais e mercadorias. Dai o questionamento a própria existência de estados nacionais, e sua organização em blocos, a exemplo, no Continente Americano, do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), organizado em 1991 e, da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), implantada em 1994. Estas organizações visam subordinar tudo ao interesse das grandes multinacionais. Tal prática, típica das sociedades neoliberais, tente e senão extinguir, pelo menos, controlar, a suposta soberania nacional e, por sua vez, a crescente supressão dos Estados nacionais. Assim, o capital se reorganiza, visando atender seus interesses. “Situação que Marx demonstrava da seguinte forma: ‘‘O processo capitalista de produção reproduz, em virtude do seu próprio desenvolvimento, o divorcio entre a força de trabalho e as condições de exploração do operário (MARX, 1973: 409)”. Ou seja, mesmo com diferentes relações de poder, o MERCONSUL e a ALCA, representa cada um a seu modo, o capital americano em busca de hegemonia.

Diante disso, a chamada globalização não é mais que um rótulo adotado pelo imperialismo capitalista, que em nome da redução de custo da força de trabalho, a partir da competitividade do mercado global que impõe a ditadura do mundo empresarial. E, assim, a humanidade passa a sofrer com a barbárie, guerras, epidemias, fome, destruição do meio ambiente e de povos, além da juventude, destruída pelas drogas e os crimes existentes no mundo marcado pela velocidade e desigualdades sociais. Dentro de uma perspectiva política, pode-se dizer que o controle não é algo material, mas consiste em uma relação estabelecida entre pessoas ou grupos a partir de uma situação na sociedade de maneira institucional, pois a estrutura capitalista esta fortificada nos interesses do Estado, onde “Todos os Aparelhos Ideológicos de Estado, sejam quais forem, contribuem para um mesmo resultado: a reprodução das relações de produção, isto é, das relações capitalistas de exploração (ALTHUSSER, 1996:120)”. E através dos aparelhos de Estados como, família, igreja e escolas que os indivíduos são interpelados pelos “tentáculos” do capitalismo. Logo “o sujeito absoluto ocupa lugar singular do centro e interpela ao seu redor a infinidade de indivíduos a se tornarem sujeitos presos aos interesses do Estado (ALTHUSSER, 1996:07-167). ’’ Nesse sentido, Marx mostra que é a situação social do homem que determina a sua consciência, o autor entende que os processos econômicos determinam toda a evolução social humana, onde a organização econômica de uma sociedade representa sua base estrutural, influenciando de maneira clara na infraestrutura social. Assim, verifica-se que a organização e a distribuição do poder esta diretamente ligada ao acumulo e a concentração de riquezas, essa situação faz com que, em uma mesma sociedade, de um lado, haja grupos que dominem, dirijam, ditem regras, por outro lado, grupos dominados, obedientes, controlados pelas necessidades impostas pelo regime dominante. O poder significa a dominação exercida por um conjunto de estruturas sociais, onde às vezes, é utilizada a educação como forma de consolidação da relação dominante-dominado. A escola, nessa relação tende a ser um “aparelho ideológico do próprio Estado (ALTHUSSER, 1996: 105).”

1.0 A relação educação e trabalho sob a perspectiva de Karl Marx.

De acordo com a perspectiva crítica fundamentada em Marx, a educação no sistema capitalista é vista como forma de consolidação do poder dominante sobre os trabalhadores. Tendo em vista que estes como seres sociais estão presentes dentro de uma engrenagem educacional que tende a supervalorizar a divisão do trabalho, o processo de acumulação de riquezas e, por sua vez, a separação entre capital e trabalho. Marx explicita uma visão diferenciada do processo educativo e da sua influência na sociedade para além da lógica capitalista. Estabelece pontos para o entendimento da estrutura da sociedade capitalista no sentido de transformação, pois, segundo ele, é exploratória e contraditória o que concretiza e aprofunda as desigualdades entre os homens. “Entretanto, apesar da hegemonia capitalista no controle do sistema educativo, essa condição não pode ser vista de forma linear, mas sob o ponto de vista de que, as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias (MARX E ANGELS, 1989: 36)”. Tal situação aponta para o fato de que a educação (e a educação escolar) é algo que, fazendo parte das circunstâncias, pode ao mesmo tempo ser redimensionada, visando satisfazer os interesses dos trabalhadores.

A concepção marxiana de educação perpassa a necessidade de agrupar trabalho e educação dentro do processo produtivo, ou seja, a criança dos 9 aos 17 anos teria contato total com o processo de produção acompanhado todas as fazes de constituição de um produto estabelecendo um relação direta com a  educação, produto e trabalho, o que fundamentaria os indivíduos para a questão de que o homem, na condição de ser social,  é quem cria, desenvolve o mundo em que vive.  Colaborando com está linha teórica, Saviani (1999) diz que: “trata-se da apropriação pelas camadas populares das ferramentas culturais necessárias a luta social que travam diuturnamente para se libertar das condições de exploração em que vivem.” Tal postura tende a romper com alienação proposta pelo sistema capitalista, centrada no grupo dos que pensam e nos que devem executar quando se trata de alienação é importante ressaltar que:

Marx desenvolve o conceito de alienação mostrando que a industrialização, a propriedade privada e o assalariamento separavam os trabalhadores dos “meios de produção” ferramentas, matéria-prima, terra e máquina, que se tornaram propriedade privada do “ capitalista”. Separava também, ou alienava o trabalhador do fruto do seu trabalho, que também é a base da alienação econômica do homem sob o capital (COSTA, 2002: 84-85).

O ponto em questão mostra que o modo de produção capitalista provoca de maneira clara a separação do indivíduo daquilo que ele produz, vendendo apenas a sua força de trabalho, algo que se faz presente na relação de produção na sociedade capitalista, ou seja, a relação entre forças produtivas. Assim, o desenvolvimento das forças de trabalho é responsável pelo aumento da produtividade e dominação do homem sobre a natureza, o que transformou a realidade social estabelecendo uma relação humana e natural historicamente constituída, o que significa dizer que  “a relação imediata do trabalho aos seus produtos é a relação do trabalhador aos objetos da sua produção (MARX, 2006:113). ”Nesse sentido, o trabalhador só tem contato com os objetos de sua produção, na produção o resultado é estranho ao operário, uma lógica perversa, onde o lucro passa a estar nas mãos dos capitalistas. Fazendo uma relação entre educação e trabalho é importante perceber que Manacorda em suas discussões ele valoriza a relação entre a educação escolar e trabalho, o que provoca a unificação das estruturas escolares com as estruturas produtivas, algo que se relaciona com a educação politécnica que será apresentada em seguida. 

Para Marx, as crianças deveriam ser educadas dentro do que ele propõe como educação politécnica, ou seja, a vinculação direta entre trabalho e ensino, a instrução escolar e o trabalho produtivo, pois essa relação constituiria um dos mais poderosos meios de transformação social. Logo, a educação politécnica provoca a possibilidade de o indivíduo se desenvolver em vários sentidos, se formando plenamente, sem ter um único caminho a seguir, um único saber, ou seja, possibilitando condições para além de uma única formação linear. Assim a educação politécnica fundamenta-se na possibilidade de romper com a alienação imposta pelo sistema capitalista, esse novo saber seria a chave para a emancipação do indivíduo como ser social, desse modo é importante notar que:

A educação dará aos jovens a possibilidade de assimilar rapidamente na prática todo sistema de produção e lhes permitirá passar sucessivamente de um ramo de produção a outro, segundo as necessidades da sociedade ou suas próprias inclinações. Por conseguinte, a educação nos libertará desse caráter unilateral que a divisão atual do trabalho impõe a cada indivíduo. Assim a sociedade [...] dará aos seus membros a possibilidade de empregar em todos os aspectos suas faculdades desenvolvidas universalmente (ENGELS Apud RODRIGUES, 2000: 57).

Portanto se de um lado existe uma educação capitalista voltada para os interesses da burguesia e que controla a massa operária, do outro lado, temos uma educação voltada para a transformação da sociedade através da ação do homem. Nesse sentido, a concepção de educação politécnica estabelece pontos significativos para que o ensino, através da escola, possa transformar o meio social. Assim, o primeiro ponto seria a valorização do ensino geral, que compreende línguas, literatura moderna e estrangeira juntamente com ensino de ciências, pois isso elevaria o nível cultural da classe trabalhadora e lhe propiciaria uma visão Universalista. Dessa forma, Marx propõe uma sociedade livre das condições de contradição, das classes sociais e da exploração por meio do trabalho. É nesse sentido que a educação é vista como fator de transformação do social e ponto central para a construção das novas condições da vida humana. O segundo ponto seria, a educação física, compreendendo os exercícios físicos que visavam salvaguardar a condição física dos meninos e futuros adultos. Já o terceiro ponto estabelece os estudos tecnológicos, que deveriam incluir os princípios gerais e científicos de todos os processos de ponderação, utilização dos instrumentos de todos os ramos industrial. É o saber ligado à prática consciente da produção, onde, os indivíduos conquistariam sua autonomia, tanto do saber quanto no fazer, teoria e prática unidas. Tal situação exige conhecimentos científicos e o aprendizado da manipulação dos instrumentos. Isto possibilitaria aos trabalhadores, o conhecimento e a apropriação das condições práticas de produção real e a apropriação dessa produção. Esse sistema educacional caracteriza-se pela criação de escolas em tempo integral divididos em dois períodos, que implicaria combinar, na formação da criança, a educação escolar e o trabalho na fábrica. No entanto, no primeiro período, a criança aprenderia questões pedagógicas (língua, matemática, ciência, literatura) e no outro momento se desenvolveria a concepção de produção, como funciona o processo produtivo e os instrumentos utilizados além de compreender, planejar e executar, onde a prática educacional e do trabalho no cotidiano dos indivíduos estão juntos, assim ‘‘As relações sociais de produção universalizam-se, transformando indivíduos em trabalhadores (MARX, 1986: 25)”. Entretanto, os dois momentos não estariam separados, mas seriam fases interligadas que apenas seriam divididos para efeito didático esse processo é entendido por Manacorda a partir da formação unilateral (tem que ser superada) do trabalhador pela perspectiva da omnilateralidade a ser ocasionada por meio da educação escolar e do trabalho caminhos que se cruzam.

Pode-se perceber que dentro dessa lógica educacional não deve existir a separação entre trabalho manual e intelectual, ou seja, o trabalho explorado, por meio de um grupo de pessoas, um que manda e outro obedece, provocando diferença entre homens. Ou seja, a escola politécnica possibilitaria a formação integral do homem, não repassando conteúdos fragmentados, mal ensinados, e sim conteúdos pedagógicos e produtivos, contrariando a lógica da sociedade capitalista, pois nesta, quem pensa não executa e quem executa não é proporcionada a possibilidade de aplicar o que pensa, pois sequer possuiria condições de ampliar a reflexão sobre o ato de trabalhar. A educação politécnica desenvolveria o que Marx denomina de omnilateralidade, ou seja, a possibilidade de o individuo se desenvolver de maneira teórica e prática. Por conseguinte a educação tem que contribuir para a liberdade dos indivíduos, do caráter unilateral que a divisão do trabalho impõe a cada indivíduo. Diante disso se faz necessário citar que:

Marx concebe apenas dois tipos humanos: o homem unilateral e o homem omnilateral. O primeiro, historicamente condicionado pelo capital, limitado em sua essência, situado em um único lado, sem a percepção do todo. O segundo amplia o “raio” de atuação, compreende para além da unilateralidade, abrange o todo, não mais limitado em sua compreensão da realidade, significando uma ruptura com as velhas formas de dominação capitalista, mesmo estando dentro dela, mas Marx supõe a superação das estruturas de dominação sócio-econômica-jurídica-política e ideológica (LUCIO, 2010:03).

Partindo dessa questão o sistema de ensino tem que possibilitar a reintegração do homem, para que esse possa desenvolver suas plenas capacidades, reunificando as estruturas da ciência com a produção. Isso proporcionaria a interligação entre ensino e produção o que não significa necessariamente escola-fábrica e nem uma orientação tecnicista e profissional do ensino, a qual Marx atribuiu ao capital, assim é importante chegar às classes trabalhadoras as bases científicas e tecnológicas da produção e a capacidade de manejar instrumentos essenciais de várias profissões, ou seja, “unir trabalho intelectual e trabalho manual” como aponta (ASSUÇÃO, 2007:360).   

 Desse modo, a educação escolar tem que contribuir para a transformação da sociedade que será livre das condições contraditórias da exploração do trabalho. O ensino “deveria ser universal, obrigatório, público e gratuito, principalmente no ensino fundamental (MARX, 1993: 110 -120)”. Ainda jovem Marx (2001) em seu trabalho, “Meditação de um Adolescente em busca de uma Profissão” o ensino não deveria ser fornecido pelo Estado, que é a representação da burguesia no poder, no entanto, o Estado tem que propiciar as condições materiais para a efetivação da escola politécnica, algo que seria gerada pelos trabalhadores, no sentido de organizar a educação para os alunos, formando indivíduos sociais plenos, cidadãos tanto na relação educacional quanto trabalhista:

(...) é somente trabalhando para o bem e a perfeição do mundo que o cerca que o homem pode atingir a sua própria perfeição. Se ele criar somente para si mesmo ele se tornará talvez um sábio, um poeta distinto, mas jamais um homem completo, um homem verdadeiramente grande. A história chama aqueles que agindo no interesse comum se enobreceram (MARX, 2001: 11-16).

O homem é um agente transformador do seu mundo através do trabalho. Mas, a mesma atividade, que lhe proporcionou o prodigioso salto de estágio animal para humanização também estar presente nesse processo de mudanças, onde, pode (e deve) ser utilizado para transformar à realidade social.

2.0 A educação no Brasil: distribuição desigual, resultados diferenciados.

No caso do Brasil partindo do artigo 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/96) que rege a educação, ele apresenta as instituições que irá garantir aos indivíduos o direito educacional:

(...) a educação dever das famílias e dos estados, inspirado nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, preparando-o para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mercado de trabalho (BRASIL, LDB 9.394/96).

Assim, sob a lógica da interpretação capitalista, ao atribuir a família a tarefa de educar, prevalece à lógica da suposta escolha do tipo de escola que os responsáveis pelas crianças poderiam realizar. Ora, no sistema capitalista, a distribuição de produtos é desigual e, sendo assim, caberá apenas àquelas famílias com elevado poder aquisitivo, de fato, o poder de escolha. Será que as famílias brasileiras garantem a escola para os seus filhos? Já que muitos precisam trabalhar desde criança para sobreviver. O Estado proporciona escolas de qualidade para os indivíduos? Podemos perceber o caráter ufanista da Lei, pelo menos para a maior parcela da população que não possui condições mínimas de sobrevivência. Assim, quando os alunos concluem seus estudos, fragmentados, dissociados da realidade em que vivem e notadamente desiguais, dificilmente podem exercer a cidadania plena, e, muito menos, podem ser inseridos no mercado de trabalho, a não ser aquele trabalho que o capital realmente deseja: desconectado com o processo produtivo e, intrinsecamente relacionado ao processo de submissão do trabalhador. Se levarmos em consideração apenas o teor da LDB/96, citada acima, parece ocorrer contradições, pois as escolas, quando muito, estão preocupadas em preparar os indivíduos para o acesso a Universidade. Assim, o aluno se tornou um produto ou um número. Sob tal ordenação lógica, a educação escolar, tendeu a valorizar os resultados, sem levar em consideração que não foi propiciada distribuição igualitária entre aqueles que tiveram acesso a ela. Se recentemente houve mudanças, tal situação se deve, de um lado, graças à luta da classe trabalhadora, obrigando o Estado a proporcionar, pelo menos, um tipo de escola que favoreça as mínimas condições de acesso, mas, por outro lado, ainda persiste de forma avassaladora, a educação que é ofertada pelo Estado como meio de discurso do mesmo, ou seja, as educações ofertadas pelo Estado e pelas iniciativas privadas tendem a sobrevalorizar os interesses capitalistas, em detrimento dos da classe trabalhadora. A existência de ensino privado, geralmente utilizando recursos públicos contribui com a não libertação da classe trabalhadora dos grilhões do capitalismo. Ressaltamos, no entanto que a educação tem que estar a serviço da classe trabalhadora. 

O capitalismo sabe da importância da educação escolar na vida do trabalhador. E, sabe também, que dependendo da forma como é desenvolvida, pode propiciar aos indivíduos quanto educandos e trabalhadores conquistarem a “hegemonia social e cultural (GRAMSCI, 1989: 33-60)”, o que implica dizer que trabalho e educação são temas que se relacionam e, é por meio desses dois elementos, que a base social é construída tanto de maneira teórica quanto prática. A educação deve ser marcada pelas práxis do trabalho, onde o princípio básico é a conquista da liberdade e autonomia dos indivíduos que são membros e construtores do meio social.  Entretanto, sob a lógica neoliberal, em um mundo marcado pela busca do lucro e a dominação de tudo que gera poder, o que vale é o controle, a acumulação na qual o trabalhador é desvalorizado e vítima de um grande processo alienador sob a lógica capitalista. Diante disso, o trabalho e a educação são mais que profissão, é mais que ter necessidade de trabalho, é na verdade as ferramentas capazes de construir uma nova sociedade, pois trabalho e educação são caminhos que se completam, no sentido que os indivíduos utilizem esses dois caminhos para conquistarem a autonomia política e consciência humana. A educação e o trabalho tem que está a serviço da transformação da sociedade, no intuito de melhorar as condições dos trabalhadores que vivem em mundo extremamente desigual e individualista.

Nesse sentido, a educação escolar e o professor nesse contexto, tem que ser os elos transformadores para superar as tradições impostas pelas ideias do capital, mas Marx, nas teses sobre Feuerbach, questiona quem educa os educadores? Pois se o educador não possui a consciência de sua condição quanto operário do sistema capitalista, um operário especial que possui incumbência de vincular-nos e os outros as práticas de submissão, a educação mantendo essa situação seria, reprodutora das relações sociais de dominação capitalista. Mas nada é certo, decisivo ou imutável, porque o próprio capitalismo não é imutável ou eterno, este depende das relações que vão se organizando no processo de enfraquecimento ou consolidação dos seus interesses, assim a partir das pesquisas feitas em 5 (cinco) escolas da rede pública de ensino, nos municípios Arapiraca, Girau do Ponciano e Feira Grande situados na região do agreste alagoano, foi possível notar que:  

INEP (2008) demonstram que apenas o Município de Girau do Ponciano, possui 01(uma) escola de ensino médio no campo. Em todo o Estado são apenas cerca de 4000 alunos, de um total de 105.808 matriculados no ensino médio em escolas do campo em 2009. O censo escolar de 2008 demonstra, ainda que, o ensino fundamental na rede pública municipal do campo de Alagoas, teve em 2008, 123.353 alunos de matrícula inicial, mas a finalização ocorreu apenas para 38.986. Em 2009, ocorreu na rede pública municipal leve crescimento negativo de matrículas para 114.004 e finalização semelhante a 2008, com 40.778 alunos (LUCIO, 2010: 2). [3]

Nesse sentido prevalece à lógica que o ensino fundamental pode ser, ainda, ofertado no campo, mas o ensino médio não, este sempre deve ser ofertado no espaço urbano, onde as escolas no campo passam a persistir na política de transferência dos alunos para os centros urbanos de ensino, uma estrutura organizada pelo governo federal e claramente apoiada pelos municípios, entretanto esta política ao invés de proporcionar condições de funcionamento das escolas do campo, fortalecem as contradições entre o campo e a cidade.

2.1. Educação e Trabalho do camponês brasileiro

Para compreendermos a realidade brasileira e a finalidade da educação em nossa situação histórica, basta observar que a educação escolar esta sendo usada como instrumento de poder da classe dominante diante disso podemos citar que:Podemos entender então algumas situações em nossa escola. A escola não é capitalista, não visa o lucro financeiro, mas deve ter como objetivo formar pessoas com o conhecimento para a vida e enfrentar o concorrido mercado de trabalho (SCHOMMER, 2008: 23).”[4]

Desse modo a educação do campo é uma categoria importante que vem recebendo estudos importantes para explicar sua conjuntura, pois a partir dos anos 90, os movimentos sociais no campo, tais como, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), junto com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), iniciaram uma discussão fundamental sobre a luta pela terra e também por melhores condições de vida para a sociedade camponesa do Brasil. Esse processo de luta no cenário brasileiro contribuiu para a ampliação e valorização da educação do campo, uma educação voltada para recriar a vida do camponês, e que se refere aos trabalhadores que vivem em uma realidade ao mesmo tempo desigual corrompida pelas ilusões do mundo urbano.

A luta por melhores condições de vida e trabalho, não é recente, pois, também não é recente o processo de exploração. Assim, o camponês, no Brasil, desde o período colonial, convivem em uma  estrutura montada que não foi aos moldes feudais de produção em processo de acumulação primitiva de capital, mas com base na hegemonia do grande latifundiário, mão de obra escrava tanto do índio quanto do negro, ou seja, “o capitalismo especializou-se na produção matéria-prima para exportação (COGGIOLA, 1999)”. Já na região Nordeste, o trabalhador também sofreu, pois a base da região era a indústria canavieira de exportação, mantendo sempre os interesses e ações do capital comercial. De forma semelhante, em Alagoas, o trabalhador rural passou a sofrer com problemas do tipo falta de emprego, violência e o estranhamento de sua realidade. Logo a partir da luta dos movimentos sociais, ocorreu um olhar mais significativo sobre a vida dos camponeses, nesse sentido a educação no campo ganha força e, no espaço institucional, a partir das Diretrizes Operacionais para a Educação no Campo. Esta parece apontar para interesses políticos, culturais, e econômicos da vida camponesa, sejam norteadores da prática educacional do campo., Assim é importante ressaltar que:  

Diretrizes, com base na legislação educacional, constituem um conjunto de princípios e de procedimentos que visam adequar o projeto institucional das escolas do campo às Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, o Ensino Fundamental e Médio, a Educação de Jovens e Adultos, a Educação Especial, a Educação Indígena, a Educação Profissional de Nível Técnico e a Formação de Professores em Nível Médio na modalidade Normal (CNE/CEB Nº 36, 2001: 22.).  

Diante disso percebe-se que o sistema valoriza todos os níveis e modalidades de ensino desde educação infantil até a educação profissional, algo que representa um avanço importante para o desenvolvimento educacional dos indivíduos. Assim, a identidade do estabelecimento escolar no campo necessita está definida a partir de sua relação com as questões presentes na realidade do campo. Ou seja, a escola tem que esta preocupada com os próprios saberes dos estudantes, buscando compreender sua relação com o meio social em que vive. O que significa dizer que a relação do aluno com a escola, que representa um espaço de aprendizagem e troca de saberes é algo que se configura de maneira importante para o seu desenvolvimento. Assim a função do poder público seria de valorizar a importância da educação escolar, onde está deve preparar o indivíduo para viver em sociedade através do exercício da cidadania, situação que contribui para o crescimento do país. No entanto, a educação nas áreas rurais, ainda precisa garantir a universalização do acesso e permanência, com qualidade, das populações do campo nas escolas públicas. Sobre essa questão em Alagoas, em pleno século XXI, grande parte de sua população não tem acesso à educação. Entretanto, aqueles que estão na escola, segundo dados do IBGE (2007) é na rede pública do Estado de Alagoas que está matriculada a maioria dos alagoanos: na educação infantil, 79,%; no ensino fundamental 94,9%; no ensino médio, 85,25; no ensino superior, 49,9%%. (LUCIO, 2010:7). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), demonstra que, em 2009, 24,6% dos alagoanos eram analfabetos. Esta situação comprova que nem todos os indivíduos estão estudando, algo que é preocupante para o desenvolvimento do Estado de forma geral.

Já que não se tem uma educação de caráter politécnica e muito menos, para muitos o acesso à escola é importante que os camponeses (aquele que estudam) tenham as mesmas condições de acesso à educação. Dessa forma as propostas pedagógicas das escolas do campo têm que respeitar as diferenças valorizando o direito e a igualdade, tendo em vista o respeito da diversidade do campo em todos os seus níveis sociais, políticos, econômicos e culturais. A partir das Diretrizes para Educação do campo percebemos que o Estado esta preocupado em ofertar, o que é importante, mas na realidade as condições educacionais não são as melhores, sobretudo na região do nordeste brasileiro e, nesta, o Estado de Alagoas. Porém, se a situação apresentada pela PNAD (2010) é grave em relação ao analfabetismo, tal situação, também demonstra que é uma condição histórica, especialmente entre os camponeses, onde se pode constar, em Alagoas, entre os anos de 1970 e 1980, que “a faixa etária de 15 a 29 anos, no meio rural, o analfabetismo correspondia a 63,29%. (LUCIO, 2003:66)”. Além disso, pode-se perceber outra situação mais preocupante:

a reedição de condições semelhantes nas décadas subsequentes evidencia que os indicadores não demostram perspectivas de crescimento positivo. Além disso, os dados também apontam que 29,2% são analfabetos e 48,9% considerados analfabetos funcionais, o que significa dizer que a maioria do povo alagoano ou é analfabeto ou semianalfabeto, perfazendo um total de 78,1% (LUCIO, 2010:8). 

Esta situação, em 2010, mostra que em Alagoas o poder público não tem desenvolvido sua função educacional, algo preocupante, pois a realidade separa o indivíduo da educação e do acesso ao trabalho para sua subsistência, caminhos que são fundamentais para a conquista da autonomia. O trabalhador do campo passa a ser um analfabeto, um desempregado e ao mesmo tempo um excluído do sistema. Desse modo a educação não está cumprindo com o seu papel social e muito menos preparando o indivíduo para o mercado de trabalho, como parece, diz defender a lógica capitalista para a educação. A Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD, 2007) órgão do Ministério da Educação (MEC), criada em 2004, aponta indícios importantes sobre a visão do governo em relação à educação do camponês brasileiro. Sobre essa questão é importante notar que:

A visão urbanocêntrica, na qual o campo é encarado como um lugar de atraso, meio secundário e provisório, vem direcionando as políticas públicas de educação de Estado brasileiro. Pensadas para suprir as demandas das cidades e das classes dominantes, geralmente instaladas nas áreas urbanas, essas políticas têm se baseado em conceitos pedagógicos que colocam a educação do campo prioritariamente a serviço do desenvolvimento industrial (SECAD, 2007: 13).

Tal condição, demonstrada pelos técnicos de uma secretaria governamental e de um importante órgão como o MEC, parece demonstrar que o meio educacional é marcado por um conflito entre o espaço urbano e o espaço rural, onde o urbano está ligado ao desenvolvimento, o progresso, já o meio rural é relacionado ao atraso ou crise social. Tal conflito, também se faz presente quando se trata da educação e o ensino no campo, assim para Arroio (2007) sob a lógica urbana, o campo passou a ser considerado lugar de atraso, pois a educação teria a finalidade de resgatar os pobres do campo e de sua realidade social algo que é extremamente preocupante para o desenvolvimento em sociedade. Entretanto, se o MEC parece apontar, pelo menos no texto citado acima, essa dualidade do sistema educacional, Arroio, enfatizar a permanência da lógica do atraso. Além disso, há uma distância significativa entre dizer e fazer, pensar e executar. O certo é que, na educação camponesa ainda persistem disparidades em todo o país, em relação à educação urbana. Esta, também considerada insuficiente e inadequada, mas, pelo menos sob a lógica governamental de orientação capitalista, possui condições superiores comparadas a educação destinada aos camponeses brasileiros. Mas a partir do INEP (2008 e 2009) foi possível notar que no Brasil as matriculas na zona rural aumentaram nos segmentos creches 5,7%; ensino médio regular 9,4%; e ensino médio da educação de jovens e adultos 7,3%, dados importantes que mostram que acesso a escola no campo esta sedo procurado mesmo com os problemas estruturais e de condições existente no campo.  O propósito da educação camponesa tem que superar essa visão urbana é valorizar, de fato, o ensino e, para isso acontecer é fundamental que o Estado dê as condições reais para que se possa desenvolver uma educação de qualidade, sobretudo no campo, ou seja, que possa distribuir de forma igualitária as condições de ensino, preparando o indivíduo para o exercício da cidadania plena. O que significa dizer que cabe aos envolvidos, a pressão para que o Estado cumpra, efetivamente, o papel que diz desempenhar.

Tal condição irá possibilitar ao ser humano ultrapassar as fronteiras impostas pela relação entre o modo de trabalho imposto pelo capitalismo aos indivíduos que vivem em sociedade. Mas é importante notar que os indivíduos transformam a natureza por meio do trabalho, produzindo cultura dando início a difícil trama da sociedade. Assim dentro dos parâmetros voltado para a educação no campo, estes tem que possui uma função emancipadora do ser humano. Diante disso, percebemos que o professor do campo, necessita está consciente da importância de seu papel de educador e formador de conhecimentos, Tal função, se configura como fundamental para o desenvolvimento de valores ligados à cidadania. Desse modo a educação no campo deve possibilitar aos alunos, futuros cidadãos um conhecimento e uma convivência que valorize a ética, não uma ética de caráter mercadológica, mas sim de valorização do seu espaço social, o que é um elemento essencial para que se concretize ou se materialize uma educação consciente e eficiente. Mas o grande problema da educação esta relacionado com as proposta para os trabalhadores em especial do campo, pois segundo Fernandes “política de educação está sendo implantado no Brasil por meio dos parâmetros curriculares, ignora a necessidade da existência de um projeto para a escola rural (FERNANDES, 1999: 65)”. Ou seja, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), homogeneízam a educação sem, entretanto, atentar para as especificidades dos camponeses.  Pois tais propostas não contemplam a importância do ensino no campo e muito menos a união entre teoria e prática, mais sim o contrário, o sistema provoca a separação entre o saber e o fazer, onde o educador é treinado para aplicar técnicas, onde o aluno assimila os conteúdos, mas de maneira fragmentada, uma educação voltada para “apertar botões”, entretanto, o modelo educacional vigente não parece procurar compreender a fase de produção.

Esta situação ainda se agrava quando se trata educação no campo, pois os indivíduos que lá habitam se sentem estranhos ao seu meio querendo sair dele por não ter oportunidades educacionais e de trabalho. Procura fugir de sua realidade, pois os camponeses passam a sofrer um processo extremo de desigualdade e exclusão social, tendo em vista que estão inseridos em um sistema marginal, desenvolvido pela ideologia dominante, pois “eles são os sem terras, os jecas-tatus (Martins, 1973).” Esta seria a visão urbanocêntrica, apontada acima. Assim a partir da ideia do capital a população rural esta condenada ao esquecimento, pois com o avanço do capitalismo no campo os trabalhadores tiveram que viver com problemas do tipo: expropriação rural, êxodo rural, concentração de renda e a falta de oportunidades, o que desestimulou a vida no campo. Além disso, estes trabalhadores em seus movimentos de luta pela terra e melhores condições de vida, sofreram repressão, como nos aponta Lisita (1992)[5], quando na resistência dos camponeses, estes enfrentaram a ira e a violência das velhas oligarquias rurais que mantem em suas mãos o monopólio dos latifúndios improdutivos,  o que é preocupante, em tempos ditos democráticos, a persistência de tais formas de manutenção do poder. Assim é importante perceber que o acesso à escola de qualidade no espaço rural é algo fundamental para os indivíduos que lá vivem, pois estes carecem de uma formação para o saber, algo que lhes possibilitarão decidir sobre seus “destinos” e, é claro, de sua vida produtiva. Em tal processo, os indivíduos necessitam participar de maneira efetiva das direções que estão presentes em sua vida enquanto cidadãos. Diante desse contexto a educação no campo enquanto fundamento histórico tem que valorizar a vida camponesa a partir do seu meio, nesse sentido tem que ter como objetivo educar um conjunto de trabalhadores que vivem em uma determinada realidade no campo, pois existe uma grande camada de povos que pertencem ao campo como, por exemplo: os quilombolas, pescadores, sem terras e claro camponeses. Assim a concepção que se busca é uma educação voltada para o campo, uma concepção de educação que procure defender os interesses, políticos, sociais e econômicos presentes na vida desses povos. Desse modo, a educação no campo é algo fundamental e necessário para cultivar, construir e ao mesmo tempo formar uma identidade do homem e mulher vinculada ao campo. Mas essa concepção educacional para o campo, não se concretiza, pois é marcada pela seguinte realidade: as escolas presentes no campo se limitam a turmas multisseriadas, um grande problema é os conteúdos curriculares e as metodologias que não levam em consideração os interesses dos alunos porque são vistos como aqueles que não sabem de nada e que devem aprender o que vem de fora, o que se tem na verdade é uma educação que não se emancipa os seres humanos, pelo contrário conserva a lógica dominante. Percebe-se então que falta uma pedagogia apropriada que confirme a existência de que no espaço rural a uma verdadeira “Escola do Campo”, e que valorize os indivíduos que lá vivem. Quanto à organização das escolas do campo é importante citar que “a organização escolar não existe. As escolas são espaços onde se aprende a ler e escrever de forma inadequada. Não há discussão com as comunidades. Adequar o calendário escolar é inadmissível (NASCIMENTO, 2007: 103)”. Dessa maneira a educação que se oferta no campo não contribui para libertar o indivíduo do atraso. Logo essa postura de educação tem que ser transformada, tal condição mostra que as escolas rurais não fornecem possibilidades que garantam o processo de ensino e aprendizagem com a categoria de trabalho.

No entanto, a educação tem que contribuir para que o indivíduo que vive no campo se desenvolva e possa ter condições materiais de sobrevivência, pois se no espaço urbano os indivíduos estão sendo agentes e mão de obra para o capital, no campo os indivíduos são considerados atrasados e estão sendo excluídos da vida em sociedade, pois causam prejuízos para o capital. Portanto, pode-se perceber que existem muitos desafios que nos mostra um longo caminho ainda a percorrer na construção de políticas públicas em direção à educação no campo, para que está torne-se de fato emancipatória e libertadora. Dentro desse contexto, o papel da escola, é formar homens integrais que conheçam o processo produtivo da sociedade de maneira consciente, sobretudo no espaço rural.

Considerações Finais

Portanto o educador tem que esta comprometida, não apenas com o profissional, mas com o humano, sua tarefa é a humanização. A escola não pode ser vista como um lugar apenas de aquisição de conhecimentos, mas de produção e construção de novos saberes, novas ideologias, pois sua função não é apenas a formação técnica do aluno, mas com a formação para a vida, assim para romper com estrutura desigual do capital é importante que os educadores não se preocupem apenas com ensino técnico, mas com a criticidade dos educandos. É dever da escola formar cidadãos participativos e atuantes na sociedade, antes de tudo o educando precisa compreender que tem uma função na social, pois ele não pode se colocar como um mero figurante, já que todo ser humano tem que ser protagonista do processo de formação histórica, situação que vale para os objetivos e as realidades educacionais no campo.

 Assim a educação tem que gerar mecanismos e condições para formar cidadãos, mas estes passam a se tornarem seres competitivos e isto se inicia claramente na educação básica, por meio de um sistema de ensino comprometido com os interesses do capital, o sistema que cria categorias, ou seja, ricos e pobres, atrasados e desenvolvidos, público e particular e educação urbana e rural, categorias marcadas por um grande antagonismo, no entanto quando se tratar em forma cidadãos é importante falar que o ensino que é garantido pelo Estado seja da mesma qualidade tanto para pobres e ricos, seja em uma escola urbana ou rural. Como se concebe a educação como prioridade dos Estados, pois somente por meio dela é que se podem formar seres humanos conscientes e qualificados para o trabalho no mundo marcado por grandes divergências políticas, sociais, culturais e econômicas e dentro desse meio de divergências a educação não está fora.

Levando em consideração os dados e discussões apontadas até o momento, percebemos que a educação e, principalmente o professor, são diferenciados dentro do estranho processo educativo e alienador, algo que exige do professor um novo ponto de vista que é a formação de um sujeito crítico e transformador e que ao mesmo tempo se sinta parte do seu meio social e isto tem que ser levado em consideração para a educação no campo, pois os indivíduos que lá vivem devem valorizar sua realidade e suas tradições culturais de maneira consciente e possam conquistar a tão almejada autonomia política e isto só pode ser possível através da educação, junto com o trabalho que são os dois mecanismos que contribui de maneira real para desenvolver qual quer tipo de sociedade.

Para tanto, a educação no nordeste brasileiro e em especial no Estado alagoano está permeada de desafios e incertezas. É isso que tem que mobilizar a busca em criar possibilidades de aprender a aprender a dinâmica educacional, unindo o saber e o fazer. Portanto, formar cidadãos, na atual conjuntura representa uma tarefa difícil, mais não impossível, tudo porque a educação e a escola não podem ser vistas como um espaço fechado, alheio ao mundo. Ao contrário é um espaço onde a busca pelo conhecimento e construção da cidadania é o objetivo real. Desse modo a educação na escola irá contribuir para a transformação da sociedade, algo que possibilita aos trabalhadores a conquista de melhores condições em um mundo marcado pelo lucro e desigualdades, pois o sistema é uma grade que prende os homens aos seus grilhões. Desse modo, educação no campo e trabalho são caminhos que se cruzam, e é algo presente na vida dos trabalhadores, nesse sentido é através da educação e do trabalho que os indivíduos iram conquistar sua hegemonia em todos os níveis sociais dentro de um mundo marcado por infinitas contradições e problemas que também se fazem presente na realidade educacional.



Referências Bibliográficas



ALTHUSSER, Luis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado, Rio de Janeiro. Contraponto, 1996.

ARROIO, Gonzales Miguel. Políticas de Formação de educadores (as) do campo. Campinas:

ASSUNÇÃO, Vânia Noeli Ferreira de. A educação tecnológica e o homem omnilateral em Marx (resenha) Projeto História, São Paulo, n.34, p. 357-361, jun. 2007. Acesso em Março de 20011. http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/viewFile/2485/1580

BRASIL. Lei nº9394, 20 de dez.1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Suplemento do Diário Oficial, Brasília, nº248, de 23 de Dezembro de 1996.

CNE/CEB. “Diretrizes operacionais da educação básica nas escolas do campo, parecer CEB nº 36/2001, do Conselho Nacional de Educação, aprovado em 04/12/2001”. In: SECRETARIA de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade-SECAD. Educação do Campo: diferenças mudando paradigmas. Brasília/DF: MEC, março de 2007(Cadernos SECAD 2);

CNE/CEB. “Institui Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Resolução Nº 01, 03 de abril de 2001”. In: SECRETARIA de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade-SECAD. Educação do Campo: diferenças mudando paradigmas. Brasília/DF: MEC, março de 2007(Cadernos SECAD 2).

COSTA, C. Sociologia: introdução à ciência da sociedade. 2. Ed. São Paulo: Moderna 2002.

COGGIOLA, Osvaldo. Brasil: a questão agrária e a luta do MST. In: PERICÁS, Luiz, Bernardo e Borsotti, Paulo (Orgs.). A América Latina, história, crise e movimento. São Paulo: Xamã, 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1998.

FERNADES, Bernardo Mançano. Por uma educação no campo. In: VV.AA. A educação básica e o movimento social do campo. Brasília: UnB, 1999:53-70.

GRAMSCI, Antonio. A questão meridional. Introdução Franco de Felipe, Valentino Parlato. Tradução Carlos Nelson Coutinho, Marco Aurélio Nogueira. ---Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

INSTITUTO Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-INEP. Censo Escolar. 2008; 2009;

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), 2010.

LISITA, Cyro. Latifondiaires, violence et pouvoir: les relations avec la paysannerie e l’église dans l’État de Goias-Brésil. Paris, 1992. Thése (Doctorat em Sociologie) – Ecole des Hautes Etud

LUCIO, Antonio Barbosa. Fronteiras da igualdade no ensino fundamental: uma proposta de análise de indicadores da qualidade do trabalho docente. UNEAL/FARDUPE, 2010. (no prelo).

MEC. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Brasília, 1996;

MANACORDA, Mário. Historia da Educação. São Paulo, Cortez Ed.e Ed Autores Associados, 1989.

MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. Tradução de Alex Marins. Martins Claret 2001.

__________. Mediação de um adolescente em busca de uma profissão. Traduzidos do Francês de Marx, K.Philosophie, París, 2001, Folio, p.11-16.

__________. O capital México. Fonte de cultura econômica, 8º ed. 1973. Vol.1

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

__________. O manifesto do partido comunista ed. São Paulo: Global, 2000. (coleção universidade popular)

MARTINS, José de Souza. Capitalismo e tradicionalismo, São Paulo: Biblioteca Pioneira de Ciências Sociais, 1975. 

SAVIANI, Dermeval. Estado e Democracia. 17º ed. São Paulo. Cortez/Autores Associados, 1988.









[1]Estudante de graduação no 8° período de História (2011) pela Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL, CAMPUS I. Trabalho realizado através do Núcleo de Estudos Agrários e Movimento Sindical Rural em Alagoas – NEASR.
[2]Professor de Sociologia- Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL- Campus I; Coordenador do NEASR.
[3] Projeto de Pesquisa Educação do (no) Campo: Analise das condições de funcionamento e de ensino em escolas no Agreste/Sertão Alagoano, elaborado pelo Núcleo de Estudos Agrários e Movimento Sindical Rural em Alagoas-NEASR, coordenado pelo professor Mestre Antonio Barbosa Lúcio, na Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL. 
[4] Autora que discute sobre mão de obra desqualificada a fim de alimentar o interesse do capital de poucos. Em seu artigo ela procura apresentar elementos também sobre a educação e a função da escola na lógica capitalista.
[5] Autor que trata dos caminhos e descaminhos da educação do campo, a partir do poder dos latifundiários e o uso da violência para combater os trabalhadores rurais,

AS CONDIÇÕES DO NEGRO NO MERCADO DE TRABALHO RURAL EM ALAGOAS (1888-1912)

BARBOSA, Marcelo dos Santos & LÚCIO, Antonio Barbosa. As condições do negro no mercado de trabalho rural em Alagoas(1888-1992). UNEAL/NEASR. (Apresentação Oral no V Seminário Negritude e resistência/UNEAL/Campus I, em  25/12/2010).

Marcelo dos Santos Barbosa[1]

Antonio Barbosa Lúcio[2]



Resumo: Este projeto visa compreender as descontinuidades políticas e ideológicas, os avanços e retrocessos e as transformações lentas e rápidas, que marcou a vida do negro no mercado de trabalho rural em Alagoas, a partir de uma interpretação sobre a questão abolicionista no Brasil e em Alagoas no período fervoroso que marcou o inicio da República e como os negros passaram a viver dentro desse contexto, diante da consolidação do modo de produção capitalista. Tomamos como ponto de partida a participação da Sociedade Libertadora Alagoana fundada em Maceió em 28 de setembro de 1881, e como esta se posicionou na conjuntura abolicionista em Alagoas e sua relação com a historiografia Nacional e local. Delimitaremos o estudo entre o período de 1881 a 1912, fazendo uma analise sobre o processo de transição do Império para a República e como essa situação se configurou no Estado de Alagoas.



Palavras-chaves: Trabalho, Abolição, República.



[1] Estudante de graduação no 7° período de História pela Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL, CAMPUS I. Trabalho realizado através do Núcleo de Estudos Agrários e Movimento Sindical Rural em Alagoas – NEARS. Orientado pelo Professor Antonio Barbosa Lúcio. Este projeto foi apresentado a Disciplina Técnica de Pesquisa em História I, coordenada pelo Professor Mestre Aldemir Barros.
[2] Mestre em Sociologia (UFPB) e Coordenador do Núcleo de Estudos Agrários e Movimento Sindical Rural em Alagoas – NEARS, pela Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL, CAMPUS I.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

PROJETO DE PESQUISA: PRONAF EM ALAGOAS

SOB A MÃO DO ESTADO - POLÍTICAS DE EMPREGO, TRABALHO E RENDA EM ÁREAS RURAIS E A REARTICULAÇÃO DA PEQUENA PRODUÇÃO: ESTUDO SOBRE O CRÉDITO FUNDIÁRIO EM ALAGOAS
Antonio Barbosa Lúcio[1]
Projeto Núcleo de Estudos Agrários e Movimento Sindical Rural em Alagoas
Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL
2008-2010(Em andamento)

Este Projeto de Pesquisa possui por objetivo analisar as políticas públicas de emprego, trabalho e renda em áreas rurais e a rearticulação da pequena produção no Estado de Alagoas a partir da década de 1990. Especificamente, destacaremos o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) enquanto forma utilizada de legitimação do Estado frente ao modelo capitalista de produção na região fumageira alagoana. Esta região constitui a partir da década de 1940, junto à cultura da cana-de-açúcar, a segunda principal área econômica do Estado de Alagoas, voltada, prioritariamente para a produção de tabaco e culturas para a produção de alimentos, como por exemplo, a mandioca, o abacaxi e produtos hortifrutigranjeiros. Possui, de acordo com a denominação geo-espacial do governo do Estado de Alagoas, 10(dez) municípios, a saber: Arapiraca, Campo Grande, Girau do Ponciano, Lagoa da Canoa, Craíbas, Coité do Nóia, Taquarana, Limoeiro de Anadia, Feira Grande e São Sebastião. Com população, segundo o IBGE (2005) de 386.653 hab, sendo 216,894, urbana e 179,759, rural, com 193,371 homens e 203,282 mulheres, em uma área total de 2.430,538 Km². Apesar de a população rural ser considerada inferior a urbana, esse fato apenas ocorre devido ser Arapiraca (a cidade pólo), importante aglutinador populacional. Ou seja, dos 199,964 hab, apenas 36.581 hab residiam em 2005, na zona rural. Entretanto, a dependência da cultura do tabaco é latente, mesmo após a crescente decadência desse tipo de cultura que já representou cerca de 15% da produção nacional, mas que atualmente, não chega a 9%( GUSMÃO,1985; NARDI, 2004), sem substituição econômica que alterasse as condições de vida de sua população. As demais cidades que compõem a região fumageira alagoana possuem população rural superior a urbana e, mesmo nesta, existe dependência direta de atividades, preferencialmente, de orientação agrícola.

Esta análise privilegia o PRONAF na região Nordeste e nesta, o Estado de Alagoas. Região e Estado que apesar de sucessivos projetos governamentais voltados para o desenvolvimento rural, não houve substantivas formas de superação das condições de vida e de trabalho dos agricultores rurais. Esta região, “apesar de ter tido um produto interno que cresceu a uma taxa média anual de 7,2 de 1960 a 1980, continua sendo uma das regiões mais pobres do Ocidente (YVES, 1985)”. Nesta realidade, apesar da continuidade de programas governamentais voltados para a agricultura de produção de alimentos, não houve significativas formas de superação da miséria e da pobreza na década de 1990 a meados da década de 2000. Esta situação não foi superada, justamente a partir de 1996 quando o governo lança o PRONAF, destinado a promover o desenvolvimento sustentável. A finalidade expressa neste programa, de acordo com o art.1 do decreto governamental 3.991, parece ser ambiciosa, pois pretende alcançar o aumento da capacidade produtiva, a geração de empregos e a elevação da renda. Além disso, a melhoria da qualidade de vida e o exercício da cidadania.

O MDA/SAF (2008) reconhece a importância dos “agricultores familiares” para o conjunto da produção no Estado de Alagoas. Em seminário de Assistência Técnica e Extensão rural realizado em abril de 2008, demonstra que

"a agricultura familiar em Alagoas concentra 110 mil estabelecimentos rurais, os quais respondem por 72% da produção dos alimentos básicos. Mesmo sem qualquer assistência governamental organizada, esses bravos agricultores familiares, respondem com certa eficiência à demanda produtiva por alimentos básicos que, diariamente se fazem presentes em nossas mesas (MDA/SAF, 2008:2)".

Ao demonstrar a importância dos pequenos agricultores familiares, confirma também a inexistência de assistência governamental para o setor. Entretanto, os resultados apresentados no seminário, citado acima, esbarram na forma organizacional de distribuição de recursos que, dentre outras coisas, não representam de forma eqüitativa o conjunto dos trabalhadores. Além disso, o aparelho estatal para a agricultura familiar deficitário, historicamente degredado, não corresponderia a expectativa de suplantação das dificuldades constatadas naquele seminário. Por outro lado, prioritariamente, os chamados agricultores familiares, estariam concentrados em áreas que não são de uso pelo setor sucroalcooleiro. Neste sentido, a concepção apresentada por Caio Prado Jr. (1981) em “Formação do Brasil Contemporâneo” de que a pequena produção contribuiria para, de certa forma, alavancar a economia açucareira, pelo fato de que não desenvolveria a produção de alimentos para seus trabalhadores (e claro, para os habitantes das cidades), mas que necessitaria desse tipo de atividade para poder subsistir enquanto monocultura, ainda estaria em voga, tendo em visto que em Alagoas, cerca de 65% das terras agricultáveis estão concentradas sob o poder usineiro, prioritariamente, na produção de cana-de-açúcar. A agricultura familiar estaria agrupada, em grande parte, no agreste e sertão alagoano (LÚCIO, 2003).

Nesse quadro, tentaremos perceber como o PRONAF estaria cumprindo o que objetiva ou se suas práticas institucionalizadas apenas corroboram com o que foi preconizado em programas anteriores voltados para o setor rural. Sendo assim, temos como hipótese que a agricultura familiar da forma como está sendo tratada tende, ao contrário do que defende o governo federal, a ser instrumento de conformação e de instrumentalização de políticas que distanciam o pequeno produtor rural de enfrentamentos frente à crise generalizada do setor agrícola brasileiro servindo como suporte para a grande indústria capitalista. Essa temática será abordada levando em consideração, por um lado, ao centrar suas atividades no pequeno produtor e ao direcionar o financiamento para atividades consideradas de subsistência, não favorece condições de ampliação e comercialização da produção de forma competitiva e; por outro lado, esta situação tende a favorecer os grandes capitalistas que, não almejando produzir culturas de subsistência, tende a abandonar esse tipo de produção. Entretanto, utilizam, no ato da produção e comercialização, mecanismos de controle das atividades produtivas objetivando a manutenção do poder dos grandes capitalistas. No primeiro caso, ocorre a concentração dos recursos, dos fertilizantes, da alta tecnologia etc.; no segundo, ocorre a concentração sob lógica de mercado dos interesses dos grandes produtores e industriais. Ao concentrar o crédito sob a “mão do Estado”, limita-se, também a possibilidade de competitividade entre os pequenos produtores rurais e os setores economicamente privilegiados.

No Brasil, existe uma ampla literatura voltada para análise do PRONAF, como por exemplo: Carneiro (1997) demonstra que o PRONAF estaria centrado na lógica produtivista inclusive com tecnologias não apropriadas aos agricultores familiares; Vilella (1997), fala da aproximação com os preceitos neoliberais; Abreu (2000) destaca que o tipo de política defendida no programa e a sua aplicabilidade, focalizadas em grupos de pobreza, na verdade, não atenderia grande parte dos agricultores familiares, mas aqueles que corresponderiam a expectativa de lucratividade dos bancos, afastando, aqueles que não tivessem garantias explicitas de que poderiam arcar com os pagamentos; Cardoso e Ortega (2001) demonstram que os preceitos do programa estariam focalizados nas políticas do Banco Mundial. Bittencourt (2003) sustenta que o credito agrícola embora possua influência positiva junto à agricultura familiar deve distancia-se das formas tradicionais de crédito promovendo mudanças quanto a sua forma de distribuição. Defende este autor que o PRONAF enfrenta dificuldades de operacionalização devido ao fato de que as instituições que o operam não estão preparadas para tal finalidade ocasionando custos elevados para efetivação do programa. Campos (2004) ressalta questão importante em relação ao programa de crédito no Brasil. Demonstra que não há homogeneidade no processo de distribuição dos recursos, privilegiando-se algumas regiões e nestas, alguns Estados, no processo de alocação de recursos. Para este autor, houve privilégios, também quanto ao tipo de produto a ser financiado, ou seja, os que receberam maiores recursos estariam intimamente ligados as cadeias agroindustriais e as culturas alimentares básicas contempladas com um montante bastante inferior. Entretanto, alguns autores, como Abromovay e Veiga (1999); Belik (2000); Abromovay (2001) e Favoreto e Damarco (2002), são de opinião de que o PRONAF propiciou condições para reflexão sobre políticas públicas para o desenvolvimento rural brasileiro. Estes autores consideram que o programa contribui como alternativa de políticas para o meio rural. Trabalhos mais específicos, voltados para análises localizadas, como Lima (2001b), por exemplo, ao analisar a produção do conhecimento pelo Serviço Público Rural do Estado de São Paulo, no PRONAF, verifica que o programa possui ênfase nos aspectos econômicos e tecnológicos e pela reprodução do modo de produção capitalista.

Tais produções analisam o PRONAF a nível nacional e regional. Essa forma de análise, apesar de apontar diretrizes gerais das políticas públicas voltadas para o financiamento da agricultura, por sua forma de organização e por não ser objeto de seu estudo, deixam de averiguar as especificidades locais, os interesses regionais e as relações existentes entre as políticas engendradas no sistema capitalista e a sua efetivação nas unidades da federação e nos municípios. Sendo assim, este trabalho busca dar continuidade aos estudos existentes se justificando pela necessidade de compreensão dos mecanismos subjacentes a estrutura capitalista no Estado de Alagoas. Justifica-se ainda, pela ausência de teses ou dissertações acadêmicas que retratem questões especificas em Alagoas. Entende-se que um Estado empobrecido, de orientação econômica prioritariamente agrícola, necessita de estudos acadêmicos que demonstrem como as ações governamentais, de fato, são efetivadas. Isto propiciaria condições de verificabilidade de como as ações desenvolvidas poderiam elevar a situação sócio-econômica; como ocorre a participação dos segmentos envolvidos e; os fatores mobilizadores e contrários a aplicabilidade das políticas públicas. Deslocar-se-ia, portanto, o foco centrado na organização capitalista urbana, propiciando condições de reflexão sobre a inter-relação entre o capital urbano e agrário no Brasil. Não se trata apenas de ênfase em aspectos econômicos, mas do aprofundamento de como tais aspectos são intrínsecos a concepção de organização estatal e, na própria dimensão que abrange tais posicionamentos na realidade de Alagoas. È necessário colocar na agenda nacional, regional e local, como são concebidas práticas institucionalizadas historicamente, mas que, por uma série de razões não são efetivamente publicizadas. Neste sentido, este trabalho, possui a ambição de contribuir com o papel de desvelamento das relações que engendram tais políticas e, a processualidade de sua efetiva concretização junto aos pequenos produtores rurais. Sua efetivação propiciará condições de reflexão acadêmica, apoio a organizações em defesa do crédito rural, a exemplo dos sindicatos rurais e organizações não governamentais

O PRONAF instituído a partir de 1996, através do Decreto Lei 1946 de 28 de julho de 1996, surge em meio a reivindicações dos trabalhadores representados pela CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) e o próprio governo Federal. Entretanto, a própria definição do que seria agricultura familiar, e, portanto a forma de distribuição de recursos, foi negligenciada pelo Governo Federal, já a partir 1964, quando foi criado o SNCR (Conselho Nacional de Crédito Rural). Enquadrou-se tanto os pequenos produtores como grandes produtores na mesma condição de acesso a empréstimos, ou seja, era exigido para todos indistintamente as mesmas garantias para ingresso ao crédito fundiário. Apenas tardiamente, a partir da década de 1990, foi definida conceitualmente, a agricultura familiar como diferente de pequena produção, produção familiar, produção de subsistência. A FAO/INCRA (1995) define, a partir de dados do IBGE, a agricultura familiar como a atividade que possuiria três critérios: gestão familiar, tempo de trabalho dedicado a unidade produtiva e área do estabelecimento.

Entretanto Wanderley (1995) em estudo comparativo sobre a agricultura familiar na França, Polônia e Brasil, verifica que a importância e o significado da agricultura familiar
“depende antes de mais nada, da associação a sua presença na sociedade com valores considerados socialmente positivos: tradição, desenvolvimento, eficiência econômica, proteção da natureza (...). A sociedade reconhece a contribuição econômica, social, política ou cultural de seus agricultores e os apóia nas transformações que lhes são impostas pelo desenvolvimento (WANDERLEY, 1995:37)”.

Esta autora explicita que, ao contrário dos outros países analisados, no Brasil, a grande propriedade foi historicamente valorizada e apoiada em detrimento da agricultura familiar. Aquela mais do que esta teria recebido incentivos de uma política agrícola destinada a modernizá-la assegurando a sua reprodução e que, o campesinato brasileiro teria sido “bloqueado, impossibilitado de desenvolver suas potencialidades enquanto forma social especifica de produção (WANDERLEY, 1995:38)”. Lamache (1993) é de opinião que, apesar da dificuldade de definição do que seria agricultura familiar, esta estaria baseada em fatores básicos: a uma unidade de produção agrícola, onde propriedade e trabalho estão intimamente relacionados à família. Se do ponto de vista do capital, a definição conceitual de agricultura familiar estaria diretamente relacionada a lógica do mercado ou de sua aparente indiferença, por outro lado, a visão contrária a essa forma de conceber a agricultura familiar, tende a sobrevalorizar a condição em que está inserida, enfatizando uma suposta resistência a exploração capitalista, como se, por si só, pudesse se sobressair em sua unidade produtiva, aos ditames do capital.

"A unidade familiar de produção se torna então o lócus da utopia de resistência ao sistema capitalista. Seus detentores, a partir de tal postura, orientam-se pela contraposição ao lucro e ao enriquecimento, uma das tendências vistas como obrigatórias; e pela fuga ao assalariamento, na outra. Ela se torna a trincheira de resistência às leis do mercado, a proletarização e à submissão às regras da empresa (NEVES, 1995: 24)".

Dessa forma, a agricultura familiar se torna o lócus da resistência ao capital, a forma de capitulação das estruturas dominantes e de oposição a essa forma de domínio. Atribui-se assim, de forma abstrata um poder a agricultura familiar que ela não possui: o poder de ser a forma de resistência ao capital monopolista. Esta condição, tanto na primeira versão que colocar a agricultura familiar sob a lógica de mercado como a que a concebe como resistência ao sistema capitalista pode ser sentida na região nordestina, notadamente considerada como a que possui maior quantidade de pobreza e miséria do país, historicamente tem essa condição agravada pela seca que assola a região. Por ser uma região de clima semi-árido e por possuir períodos secos intensos, geralmente por cerca de oito meses ao ano, tende a contribuir decisivamente para esse processo crescente de empobrecimento de sua população, especialmente aquela que ainda convive diretamente com esse fenômeno natural: os trabalhadores rurais. Entretanto, a crença de que o grande problema da região Nordeste estaria diretamente vinculado com a sua condição climática não possui de acordo com Andrade (1984-5) fundamento algum se for levado em consideração que diversas regiões do planeta convivem cotidianamente com fenômenos naturais semelhantes ao que encontramos no Nordeste e às vezes, devido à diversidade climática, possui características mais agravantes. Dessa forma, para o autor acima, o grande problema da região nordestina estaria diretamente relacionado a “um sistema econômico alienado que impede o desenvolvimento real, com implicações não apenas econômicas, mas também sociais e ecológicas sobre a região(ANDRADE, 1984/5:33)".

A forma como são conduzidas políticas públicas para o setor agrário, é que tende a sobrevalorizar a economia voltada para a exportação de seus produtos em detrimento de produzidos por agricultores familiares. “Na verdade, os grandes problemas do Nordeste resultam muito mais de condições sócio-culturais e econômicas do que de condições naturais” (ANDRADE, 1984/5: 34). Posto dessa forma pode-se discutir tanto os efeitos climáticos sobre a região nordestina, como as políticas públicas que, ao invés de possibilitar condições de ampliação de melhoria de vida da população, trava essa possibilidade, ao direcionar os parcos recursos aos setores economicamente dominantes, concentrando financiamentos, por vezes, de forma subsidiada, aos grandes capitalistas, sendo

"necessário desmistificar a seca como elemento desestabilizador da economia e da vida social nordestina e como fonte de elevadas despesas para a União (...) desmistificar a idéia de que a seca, sendo um fenômeno natural, é responsável pela fome e pela miséria que dominam na região, como se esses elementos estivessem presentes só aí (ANDRADE,1985b:7 )".

Esta situação nos remete ao fato de que, a própria América Latina, possui uma relação de dependência ao capital internacional. Neste conjunto de dependências, no Brasil, a região nordeste representaria o elo mais fraco economicamente, desde o processo de substituição das grandes culturas, no Brasil colonial e Imperial. Sua condição vai sendo acentuada, por todo o período republicano. Desde a década de 1950 e, especialmente na década de 1970, o governo Federal alocou recursos para ampliação dos produtos de exportação em detrimento da agricultura praticada por pequenos produtores rurais. Este fato pode ser explicitado pelo próprio papel desenvolvido com a implantação da SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Oliveira (1977) é de opinião que a SUDENE não seria uma farsa, mas “um empreendimento de uma audácia na história nacional (OLIVEIRA, 1977)”. Entretanto, para este autor, as forças vencedoras de um projeto centrado no poder do capital arrefeceram a forças populares que possuíam um projeto para o Nordeste. O que significa dizer que a SUDENE, em sua ambigüidade, anunciava as duas possibilidades. Mas a própria condução do chamado desenvolvimento, consolidando o capitalismo monopolista, freou a probabilidade de consolidação de um modelo de sociedade centrada nos interesses da população.

Yves(1984/5) destaca que em continuidade a essa forma de entender o desenvolvimento brasileiro e nordestino, o governo ditatorial implantou, a partir da década de 1970, diversos programas governamentais, tais como: o PIN (Programa de Integração Nacional) em 1970 e o PROTERRA (Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agricultura do Norte e Nordeste). Estes dois programas não conseguiram atingir seus objetivos explícitos de distribuição de terras, mas possibilitaram a modernização e capitalização dos proprietários já existentes. Outro programa desenvolvido, em 1971, foi o Programa de Irrigação do Nordeste, não obtendo êxito por sua abrangência limitada a quantidades pequenas de famílias atingidas. Dando continuidade a essa forma de conceber, em 1974, foi criado o POLONORDESTE (Programa de Desenvolvimento de áreas Integradas do Nordeste). O certo é que todos os programas criados apareciam como paliativos diante o forte aparato montado para favorecer os grandes latifundiários. [1]

O exemplo disso foi o PRÓALCOOL (Programa Nacional do Álcool), que desenvolveu, em meados da década de 1970, atividades para expansão do complexo sucroalcooleiro nordestino com a implantação e ampliação de usinas e destilarias, tendo como objetivo imediato apaziguar o setor energético. Este programa, conjuntamente com o Programa de Racionalização e Modernização da Indústria Açucareira, teve o papel de ampliar a atuação da agroindústria sucroalcooleira, inclusive, no caso do segundo programa, incentivando o processo de relocalização das usinas. Estes dois programas juntos ocasionaram problemas significativos para o nordeste, ao não levar em consideração as populações envolvidas dos diversos Estados da região e, ao direcionar grandes somas de recursos subsidiados, não possibilitou de forma semelhante ou mesmo proporcional para a agricultura de produção de alimentos (ANDRADE, 1984/1985a; ANDRADE, 1985b; MELLO, 1990; LIMA, 2001a; LUCIO, 2003).

Além disso, ocorreu na região nordeste, de forma semelhante aos programas anteriores, processo crescente de pecuarização com empréstimos oficiais e a juros baixos. Esta situação favoreceu o arrefecimento da produção de alimentos na medida em que libertou o pecuarista de ter que fornecer terras aos que não possuíam, em forma de arrendamentos, transformando parte das terras agricultáveis em pasto para alimentação de gado bovino (ANDRADE, 1984/5).

O certo é que o processo de modernização conservadora se consolidou de tal forma que impediu a ampliação das forças populares consolidando o capitalismo monopolista. Este tipo de capitalismo pode ser percebido na região Nordeste em seus contrates: de um lado, os grandes latifundiários, obtendo recursos subsidiados que, se quisessem (mas não o fazem) poderiam desenvolver suas atividades sem recursos estatais, por outro lado, os agricultores familiares, com pouco ou nenhum recurso, tendo que competir de forma dita igualitária com os latifúndios subsidiados. Esta situação ocorre devido ao fato de que

"O Estado não é neutro e, conseqüentemente, o seu planejamento e as suas políticas estão relacionadas a interesses específicos. Sabendo que o bloco do poder não é monolítico, mas situa-se num palco onde interesses muito diferentes se enfrentam e se chocam, o aparelho do Estado está sujeito a diversos tipos de pressões. Neste contexto, o Estado desempenha dois papéis básicos e, com freqüência, mutuamente contraditórios: acumulação e legitimação (YVES, 1984-5: 65)".

Dessa forma, os programas governamentais impulsionados por essa postura conciliadora objetivando consolidar o capital monopolista, tende a repetir, em forma de farsa, um modelo de ampliação dos interesses globalizantes já realizados de forma semelhante em décadas anteriores. Além disso, grupos economicamente privilegiados, com sua força política, impõem a grande parcela da população formas de consolidação de um modelo de sociedade essencialmente excludente, utilizando-se, para tanto, o próprio mascaramento dos programas governamentais. Estes se apresentam como de conotação diferenciada dos programas anteriores, como se estivessem direcionados, da forma como são implantadas, da própria política de assistência ao produtor familiar tendo em vista um possível fortalecimento desse setor. O que ocorre com esse tipo de políticas públicas é uma forte ambigüidade enquanto sua própria postura: não seria possível fortalecer a agricultura familiar sem alocar recursos do capital monopolista. Essa ambigüidade não parece ser resolvida, na medida em que, por um lado, os recursos governamentais voltados para a agricultura familiar, são expressamente direcionados àqueles que, de uma forma ou de outra, estão incluídos no processo produtivo e, possuem condições financeiras de arcarem com os impostos oriundos desses programas e; por outro lado, são excluídos os produtores familiares e trabalhadores rurais em geral que não possuem os requisitos mínimos exigidos por essa lógica de assistência excludente do Governo Federal. Dessa forma, incidi uma limitação de recursos tanto do ponto de vista de que não é possível, dentro da lógica do capital, direcionar recursos para a agricultura familiar sem diminuir do latifundiário, como também, não é desejável para o capital que tais recursos cheguem de forma equânime a maioria dos pequenos produtores.

Para a análise da intervenção do Estado na economia dos camponeses alagoanos é necessário desvelar as relações e problemas que engendram e impulsionaram direcionamentos para a consolidação das formas de alocação e distribuição de recursos, buscando explicitar fatores e atores que, no conjunto das políticas públicas, estiveram tanto nas instâncias reguladoras do Estado como enquanto receptores, passivos ou ativos, desses tipos de políticas para áreas rurais. Assim, a opção metodológica aqui adotada, possui por base, a visão de que o objeto em estudo deve ser apreendido enquanto parte constituinte do processo histórico. Nesse sentido, interagimos, com Goldeman(1978) segundo o qual a não consideração do elemento histórico nos estudos dos fatos humanos, pode resultar em aproximação e simplificação pobres. Em consonância com o pensamento desse autor, rechaçamos o cientificismo com a sua superstição do quantitativo e da métrica. A nossa opção, portanto, foi estudar o crédito fundiário em Alagoas, sob a perspectiva de que esta não pode ser apreendida de modo desvinculado do contexto sócio-cultural-econômico e político. Tal abordagem, de orientação dialética, fundamenta-se na premissa de que há uma ligação indissolúvel entre as transformações econômicas e as lutas sociais, já que não há realidade histórica que não seja humana. A proposta metodológica visa, também, a confluência de várias técnicas de pesquisas. Estas proporcionarão condições de averiguação dos pressupostos aqui assinalados.

Esta análise privilegia a pesquisa de campo que comportará as seguintes fases: 1 - Pesquisa Bibliográfica sobre o assunto em questão; 2 - Técnicas para coletar os dados; 3 - as fontes de amostragem e definição de amostra. 4 - Coletar os dados 5 - Técnicas de registro dos dados. 6 - Analise dos resultados. A pesquisa de campo da coleta de dados deverá ocorrer na FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), nos órgãos governamentais do Ministério do Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, do Planejamento, do trabalho e da Integração Nacional. Os bancos públicos federais (BB, BNB e BNDS), a Secretaria do Tesouro Nacional, a Secretaria de Agricultura Familiar, o Conselho Monetário Nacional e a SUDENE. Em nível Estadual, o CEDRS e os CMDRS, os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (CONTAG, FETAG/AL e STR’s), as entidades de extensão rural e os trabalhadores rurais. Estes deverão ser escolhidos de forma aleatória, em um total de 20(vinte) trabalhadores dos municípios envolvidos, tendo como critério apenas, 10(dez) como adimplentes e de 10(dez) inadimplentes com as agências financiadoras. As estes serão realizadas entrevistas estruturadas. Além disso, serão utilizados questionários mistos (fechados e abertos). A apreciação dos dados levará em consideração a análise qualitativa dos dados, através da análise tipológica, buscando assim, extrair de materiais mais extensos, elementos que possam ser descritos em maior profundidade. Este procedimento favorecerá a possibilidade de comparação dos fatores mobilizadores e contrários a aplicação do crédito fundiário, nos municípios analisados. A partir da compreensão dos fatores mais gerais que ocorreram na região fumageira, optou-se por enfatizar duas grandes formas de desenvolvimento produtivo no agreste alagoano[2]: uma integrada a produção de tabaco, concentrada, também, em pequenos produtores, mas com alocação de recursos insuficientes e/ou inexistentes por parte do poder público. Outra, incorporada a partir da década de 1990, as chamadas “culturas alternativas” a produção de tabaco. Estas que até então eram realizadas de forma consociada com a cultura do tabaco, constituindo o lócus privilegiado das ações de crédito fundiário, notadamente dissipada nos municípios a ser analisados. A primeira, mediante a reestruturação produtiva, perde espaço. A segunda, com créditos e técnicas insuficientes, como atestou o MDA/SAF (2008), não conseguiria o desenvolvimento sustentável para a região. Ambas, em forte decadência, contribuiriam para o arrefecimento da cadeia produtiva do agreste alagoano.

Dessa forma, este trabalho possui o objetivo geral de analisar as políticas públicas de emprego, trabalho e renda em áreas rurais e a rearticulação da pequena produção no Estado de Alagoas a partir da década de 1990. Especificamente, destacaremos o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) enquanto forma utilizada de legitimação do Estado frente ao modelo capitalista de produção na região fumageira alagoana e, como objetivos específicos: a) identificar e analisar políticas públicas de emprego, trabalho e renda e a rearticulação da pequena produção na sociedade capitalista; b) investigar os interesses subjacentes que impulsionaram a utilização do crédito fundiário no Brasil voltado para atender a demanda de camponeses sob a lógica de organização do sistema capitalista; c) análise das especificidades do crédito fundiário, no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, procurando identificar fatores que estimularam a lógica de organização, fundamentação e efetivação em Alagoas; d) avaliação dos efeitos, limites e contradições na aplicabilidade do PRONAF em municípios alagoanos.

Para exposição dos resultados da pesquisa, dividimos o trabalho nos seguintes capítulos, abaixo descritos:

O primeiro capítulo situa a discussão da problemática do emprego, trabalho e renda em áreas rurais e a rearticulação da pequena produção na sociedade capitalista. Dividido em duas sessões, esse capítulo desenvolve, primeiramente, uma discussão teórica sobre políticas públicas para o campo, demonstrando duas posições antagônicas: a lógica fundamentada na alocação de recursos sob a ótica do capital centrada na perspectiva agroindustrial e, a proposta sedimentada, na literatura, para os camponeses. Num segundo momento, realiza-se um estudo sócio-histórico das condições de vida e de trabalho dos pequenos produtores rurais no Brasil.Visa-se, explicitar fatores que impulsionam ou dificultam as relações camponesas de manutenção da vida.

O segundo capítulo traz uma reconstituição histórica do crédito fundiário no Brasil. Analisam-se, tanto os interesses subjacentes nas políticas de crédito, como suas conseqüências para os camponeses. Nesta análise, também será observada as formas de alocação de recursos com seus limites e contradições. Ao apresentar as formas de crédito, visa-se demonstrar, a partir da literatura pertinente, como tais políticas puderam ser historicamente organizadas e suas bases teórico-metodológicas expondo, assim, seu desempenho, sua representatividade, sua importância e seus limites para o Estado de Alagoas.

O terceiro capítulo explicita a sistemática de organização do crédito fundiário em Alagoas, objeto de nossa reflexão. Dividido em três subitens, este terceiro capítulo, traz, em primeiro lugar, análises voltadas para o processo de desenvolvimento da “invenção do nordeste”, das políticas de crédito rural nordestino, seus impasses e suas práticas. Analisa-se, também sua eficiência e eficácia em atender a demanda por emprego, trabalho e renda para o nordeste do Brasil. Num segundo momento, buscam-se demonstrar os impasses centrados na dinâmica da agricultura familiar, baseados em seus pressupostos teóricos, limites de concretização dentro da ordem vigente capitalista. No terceiro subitem, enfatiza-se o crédito fundiário em Alagoas. O objetivo será explicitar, tanto as relações que impulsionam o crédito, como os limites existentes em um Estado onde prevalece, de um lado, a agroindústria canavieira, detentora de tecnologias, acesso ao crédito, técnicas de racionalização da produção e, por outro lado, pequenos produtores rurais em processo de reestruturação produtiva e, desproporcionalmente, com insuficiente acesso ao crédito fundiário.

O quarto e último capítulo procura dar continuidade ao anterior. Busca-se, através de análise qualitativa, o reconhecimento da efetivação do crédito rural nos 10(dez) municípios que compõem a região fumageira alagoana. Enfoca-se, também, que além das políticas de credito sob a lógica capitalista, a relação de poder local tende a influenciar decisivamente para que tal crédito possa ser efetivado e obtenha êxito, mesmo dentro da lógica de acumulação capitalista. Estas relações, ora tendem a impulsionar mudanças significativas frente à condição de vida e de trabalho; ora, pela forma como ocorrem, passam a impulsionar práticas de orientação assistencialista, clientelistas e burocratizadas, desde a distribuição dos recursos para cada localidade em organismos federais, até o CEDRS (Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável) e o CMDRS (Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável), além das organizações sindicais como Sindicatos de Trabalhadores Rurais, os Sindicatos de Agricultores Familiares, os Sindicatos Rurais patronais.

Nas considerações finais, demonstraremos a validação da hipótese de trabalho segundo a qual a agricultura familiar da forma como está sendo tratada tende, ao contrário do que defende o governo federal, a ser instrumento de conformação e de instrumentalização de políticas que distanciam o pequeno produtor rural de enfrentamentos frente à crise generalizada do setor agrícola brasileiro servindo como suporte para a grande indústria capitalista.






















REFERENCIA BIBLIOGRÁFICA

ABRAMOVAY, Ricardo. Conselhos além dos limites. Revista de Estudos Avançados, São Paulo,v. 15, nº 43, p. 121-140, set./dez. 2001.
ABRAMOVAY, Ricardo. & VEIGA, José Eli da . Novas Instituições para o Desenvolvimento Rural: o caso do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Textos para Discussão no. 641. IPEA. Brasília/DF, 1999.
ABREU, L. S. de. Uma análise crítica sobre a definição e classificação do público do PRONAF. In: CAMPANHOLA, C. & GRAZIANO DA SILVA, J. F. O novo rural brasileiro: políticas públicas. Jaguariúna/SP: EMBRAPA Meio Ambiente, 2000.
ANDRADE, Manoel Correia de. A seca e o combate aos fatores desestabilizadores da economia agrícola do Nordeste. Paraíba: Campina Grande: Raízes, ano IV, v.3, n.4-5. Jan. 1984/dez. 1985a.
ANDRADE, Manoel Correia de. A seca: realidade e mito. Recife: ASA Pernambuco, 1985b.
BELIK, W. Pronaf: avaliação da operacionalização do programa. In: CAMPANHOLA, C. & BITTENCOURT. Gilson Alceu. Abrindo a caixa preta: o financiamento da agricultura familiar no Brasil. UNICAMP/SP, 2003.
CAMPOS, Rodrigo Ferrarini de. PRONAF: índices de financiamento e características da distribuição do crédito rural no Brasil de 1996 a 2001. CAMPINAS/SP, 2004.
CARDOSO, A. e ORTEGA, A. C. Pronaf-Leader: potenciais e limites de uma política de desenvolvimento local. Revista de Economia e Sociologia Rural, Brasília, v. 40, n.º 2, 2001.
CARNEIRO, Maria José. Política pública e agricultura familiar: uma leitura do Pronaf. En publicacion: Estudos. Sociedade e Agricultura no 8. CPDA, Curso de Pós- Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Brasil. abril. 1997 1413-0580.b. Disponível em: ="http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/brasil/cpda/estudos/crono.htm#N%FAmero%208. acesso em 20/10/2008.
FAVARETO, A. e DEMARCO, D. Políticas públicas, participação social e as instituições para o desenvolvimento rural sustentável: uma avaliação dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural. Relatório Final de Pesquisa. São Paulo/Brasília: Convênio 201087/01 – Plural/IICA (SAF/MDA), maio/2002.
FAO/INCRA. Diretrizes de política agrária e desenvolvimento sustentável. Resumo do Relatório Final do Projeto UTF/BRA/036, segunda versão. Brasília, 1995
GOLDEMANN, L. Ciências humanas e filosofia: que é Sociologia?Rio de Janeiro: DIFEL, 1978.
GUSMÃO, I. M. Acumulação do capital e espaço: estudo das modificações estruturais no espaço da região fumageira de Alagoas. UFPE, 1985.
LAMARCHE, H. (Coord.). Agricultura familiar: comparação internacional. Campinas/SP: Editora da UNICAMP, 1993.
LIMA, Araken Alves de. Agroindústria canavieira alagoana: da criação do IAA à desregulamentação na década de 1990. São Paulo: Campinas, 2001a.
LIMA, Ivamney Augusto. A extensão rural e a produção do conhecimento: a fundamentação científica dos planos de desenvolvimento rural no programa nacional de fortalecimento da agricultura familiar (PRONAF) no Estado de São Paulo. São Paulo: Campinas, 2001b.
LÚCIO, A. B. A ação sindical dos trabalhadores rurais a partir da década de 1970: as campanhas salariais dos canavieiros de Alagoas. Campina Grande/PB: UFPB, 2003.
MDA/SAF. Seminário Estadual de ATER. Alagoas, 28 a 30/04/2008. Disponível em www.condraf.org.br/gnc/gnc/Kit/...20GDH/Documento_Referencial_Projetos_Mov_Sociais.docAcesso em 20/10/2008.
MELLO, P.D.de A. Alagoas: sindicatos rurais e dominação. UFRRJ, 1990. (Dissertação de Mestrado).
NARDI, Jean Baptiste. Fumo e desenvolvimento local em Arapiraca/AL: primeiras observações e análises para elaboração do diagnóstico sócio-econômico municipal e regional. Arapiraca, out.2004(Relatório de Pesquisa/FAPEAL).
NEVES, D.P. Agricultura familiar: questões metodológicas. Revista da Associação Brasileira de Reforma Agrária. Campinas, v.25, n.2 e3, p.21-36, maio/dez.1995
NOVAES, J.R.P. Modernização, relações de trabalho e poder: um estudo das transformações recentes na agroindústria canavieira do Nordeste. Campinas: UNICAMP, 1993.
OLIVEIRA, F.de. Elegia para uma Re(li)gião: SUDENE, Nordeste, planejamento e conflito de classes.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. 17 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
VILELA, S. L. O. Qual a política para o campo brasileiro? Do bloco mundial ao Pronaf: a trajetória de um novo modelo? Natal: XXXV Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural, Natal/RN: Anais :SOBER,1997.
WANDERLEY, M. de N. B. A agricultura familiar no Brasil: um espaço em construção. Revista da Associação Brasileira de Reforma Agrária. Campinas, v. 25, n.2 e 3, p. 37-57, maio/dez,1995.
YVES, Charlout. Uma política de legitimação do Estado e rearticulação da pequena produção: o projeto nordeste. Paraíba: Campina Grande: Raízes, ano IV, v.3, n.4-5. Jan. 84/dez. 85.

[1] Foram realizados Programas da fase do desenvolvimento rural integrado (DRI): a. POLONORDESTE - Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste (o de maior relevância por sua abrangência e atuação); b. Projeto Sertanejo - Programa Especial de Apoio ao Desenvolvimento da Região Semi-árida do Nordeste; c. PAPP - Programa de Apoio ao Pequeno Produtor; PROHIDRO - Programa de Recursos Hídricos do Nordeste; PROINE - Programa de Irrigação do Nordeste.

[2] Essa postura possui como base o fato de o pesquisador necessitar considerar possíveis variações que interferem no processo de alocação e distribuição de recursos para além dos dados apresentados através das fontes secundárias.

[1] Professor Assistente em Sociologia na Universidade Estadual de Alagoas-UNEAL-2008